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Tudo o que eu (não) queria ser.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010 @ 15:24
Já fazia uma meia hora que eu estava parada dentro do elevador. Tocava Garota de Ipanema em inglês, por isso eu não poderia nem acompanhar a letra da musica para ter o que fazer. Por isso eu mascava o chiclete como se fosse pedra, impaciente. Decidi fechar os olhos para ver se o tempo passava rápido, mas aquilo tudo era de uma lentidão ímpar. Fiquei lembrando o que eu pensava o tempo todo: Eu queria ser famosa, queria sair nas capas das revistas e ter o foco das câmeras em mim. Será que tudo aquilo iria me impedir? Foi quando o elevador parou. E as portas não se abriram. - Como assim, eu estou esperando esse tempo todo e vou ficar parada mais uma vez? Eu me perguntei ou perguntei ao elevador, sei lá, a essa altura eu achava que já estava ficando doida. - Você sabe por que está aqui? Falou uma voz do além. Literalmente do além. Mas eu imaginava que era o elevador mesmo e me virei para a parede da lateral esquerda para responder: - Bom... Eu estava fazendo alguma coisa... Ah é. Eu estava lendo uma revista na varanda e tinha uns caras jogando bola na rua, até que ela caiu na frente da minha casa e quando e eu fui pegar.. Mas eu estava distraida com a revista. É, aí eu fui atropelada acho. Depois eu acordei no hospital.. Mas pelo visto eu não me recuperei e aí eu apareci aqui. Eu morri, então. - Sim. - E agora o que acontece? - Eu já tinha começado a gesticular com o elevador - Ah, já sei. Vão me julgar e se eu tiver sido uma boa menina eu vou continuar subindo, mas se pequei o elevador vai descer até o inferno e o resto é tudo aquilo o que falavam? Eu tinha tanta certeza de que era mentira.. - Você vai voltar. - A voz do elevador respondeu. É claro que não era o elevador, mas nesse espaço de nada só havia ele e eu. - Voltar? Ah! Então eu estou tipo, em coma? - Agora eu estava começando a entender a situação de novo. - Você morreu. Isso já é um fato. Então nada mais fazia sentido. - Então por que eu vou voltar? Não me responderam, o elevador só desceu. E demorou muito nessa descida. Já estava começando a achar que era pegadinha, que eu iria para o Inferno mesmo e o elevador só estava fazendo uma brinks comigo antes de me levar direto para lá. Nisso, finalmente as portas se abriram. E a voz falou de novo: - Não era para você ter morrido. Era para o caminhão ter atropelado outra pessoa. Aquele cara de preto que estava indo buscar a bola. - Eu sabia que eu não deveria ter sido tão generosa. Eles tinham uma cara estranha.. - Então você voltará, mas não no seu corpo. - A voz continuou, ignorando o meu comentário. - Mas porque? - O caminhão passou por cima de você. - E isso já respondia a minha dúvida - Você vai poder ser uma dessas três pessoas, dentro dessas cabines. Você vai escolher uma delas e entrar. "Pronto, vou para Pandora" Pensei, óbviamente sabendo que não era isso. É que esse negócio de entrar numa cama/cabine não era lá muito original. Mas esqueci logo isso e escolhi qualquer uma, pois as três cabines eram exatamente iguais. Quando eu sai, veio um grito: - AAAAHHHHHH TÁ LIIIIINDAAAAAAAAAAAAAAAA! Paetê fica muito bem em você, querida. Quem tinha falado isso era um cara alto, com o sorriso grande e vestindo uma blusa cor-de-rosa onde se lia "Eu sou a Lady Gaga". E é claro que ele não era a Lady Gaga. Eu tinha saido de uma cabine de loja, e ele provavelmente era algum amigo. - Ahm... Er.. - Você demorou uma década aí dentro, pensei que tinha se perdido no zíper! - É.. Hm.. Tava meio complicado de fechar o.. - Então eu olhei para trás, e me olhei no espelho. Eu estava trajando um vestido minúsculo vermelho, e eu tinha olheiras horríveis e também um cabelo seco ruivo mal cuidado e tatuagens estranhas nas pernas. Ai. Meu. Deus. Eu era uma garota de programa? - Vestido. No que eu trabalho? - Amorzinho, não pira. Você vai levar ou não? Temos que ir. - Não, sério, no que eu trabalho? - Eu insisti. - Você é atriz e cantora, Gisele, dã. Agora vamos? - Mas por que eu sou assim? - Ai querida vai dar ataque agora? Você sabe que os livros de auto-ajuda que eu leio não dão conta de dar conselho não. Você ja está indo no pisciquiatra e no terapeuta. E você tem o photoshop e a maquiagem aos seus pés, agora vamos! Como assim? Eu tinha entrado no corpo de uma pessoa como eu queria ser, mas não era isso que eu imaginava! Essa Gisele era totalmente acabada, os artistas famosos que eu via não eram assim. Desanimei. Passou um ano, dois anos, três anos, quatro anos, cinco. Eu fazia de tudo para me mudar, para ser o que eu queria ser antigamente, mas de um jeito diferente. Não sei se for por falta de vontade própria minha, ou por me acomodar aos antigos hábitos de Gisele. O instinto dela foi ficando em mim. E a vida que me foi dada foi toscamente aproveitada, porque acabei morrendo mais uma vez. E dessa vez foi pra valer.
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